Área de atuação · EB-2 NIW

EB-2 NIW: green card sem oferta de emprego, pelo interesse nacional

Marcelo Barros da Cunha

O national interest waiver não é uma categoria de visto. É uma dispensa dentro da segunda preferência de imigração por emprego, a EB-2, que normalmente exige oferta de emprego de empregador americano e labor certification aprovada pelo Departamento do Trabalho. Concedida a dispensa, os dois requisitos caem, e o próprio interessado pode ser o peticionário.

Essa distinção não é terminológica, e explica a maior parte das negativas. Antes de examinar o interesse nacional, o oficial verifica se o requerente se qualifica na própria EB-2. Não se qualificando, a petição é inelegível por força de lei, e pode ser negada sem que a dispensa chegue a ser analisada.

A primeira porta: qualificar-se na EB-2

Há duas vias, e a escolha entre elas define o dossiê inteiro. A primeira é a do profissional com pós-graduação. O regulamento define advanced degree como qualquer diploma acadêmico ou profissional americano, ou equivalente estrangeiro, acima do bacharelado. Prevê ainda a equivalência: bacharelado americano, ou equivalente estrangeiro, seguido de ao menos cinco anos de experiência progressiva na especialidade, equivale a mestrado. E quando a especialidade costuma exigir doutorado, é o doutorado que se exige.

A ARMADILHA DA VIA DOS CINCO ANOS: a experiência precisa ser posterior à conclusão do bacharelado, e precisa ser na especialidade, relacionada ao diploma e ao empreendimento proposto. O exemplo que a própria orientação dá é direto: bacharelado em química seguido de cinco anos gerenciando restaurante não equivale a mestrado em química para um empreendimento na área química. Quando a profissão não exige diploma em campo específico, o USCIS costuma interpretar a especialidade como relacionada ao empreendimento.

Há um requisito ligado a essa via que surpreende quem tem título alto e projeto em campo distinto: a ocupação pela qual se pretende avançar o empreendimento precisa ser uma profissão, isto é, ocupação que exija ao menos bacharelado para ingresso. O que se avalia não é o diploma da pessoa, mas o requisito de entrada da ocupação. Quem tem doutorado em engenharia e propõe empreendimento em engenharia pode qualificar-se; quem tem o mesmo título e propõe abrir uma padaria terá dificuldade, porque a ocupação de padeiro em geral não exige bacharelado. É a ocupação subjacente que decide.

A segunda via é a da habilidade excepcional, definida como grau de expertise significativamente acima do que se encontra normalmente nas ciências, nas artes ou nos negócios. É padrão mais baixo do que o da habilidade extraordinária do EB-1A, e se demonstra por ao menos três dos seis tipos de prova do regulamento.

Se esses tipos de prova não se aplicam prontamente à ocupação, cabe prova comparável, desde que o peticionário explique por que a apresentada é comparável. Afirmação genérica de que um critério não se aplica não convence, e pedir que cartas de terceiros sejam aceitas como prova comparável tampouco.

TRÊS CRITÉRIOS NÃO BASTAM, E A ÁREA PRECISA CONVERSAR COM O PROJETO: atendidos três dos seis, o oficial ainda faz a determinação final de mérito, avaliando o conjunto para decidir se há mesmo expertise significativamente acima da média. E, no contexto do NIW, a área da habilidade excepcional precisa ser diretamente relacionada ao empreendimento proposto. Habilidade excepcional em ciência da computação sustenta empreendimento em computação; não sustenta, em regra, empreendimento em campo alheio, por mais sólida que seja.

A segunda porta: os três prongs de Dhanasar

Vencida a elegibilidade na EB-2, examina-se a dispensa. O quadro de análise vem de Matter of Dhanasar, decidido pelo Administrative Appeals Office em 27/12/2016, que vacou o teste anterior de Matter of New York State Department of Transportation. São três exigências cumulativas, e a concessão permanece discricionária mesmo quando as três estão satisfeitas.

Prong O que se prova
Primeiro O empreendimento proposto tem mérito substancial e importância nacional.
Segundo O requerente está bem posicionado para avançar o empreendimento.
Terceiro No balanço, é benéfico aos Estados Unidos dispensar a oferta de emprego e, com ela, a labor certification.

Primeiro prong: o empreendimento, não a profissão

Empreendimento é mais específico do que ocupação, e confundir os dois é o erro mais comum. Em Dhanasar, a ocupação era engenheiro e o empreendimento era pesquisa e desenvolvimento em sistemas de propulsão aérea e espacial. Não basta descrever o que a profissão faz: é preciso dizer que projetos e que objetivos a pessoa pretende perseguir dentro dela, e por qual via.

O mérito pode estar em negócios, empreendedorismo, ciência, tecnologia, cultura, saúde ou educação, entre outros campos, e não precisa de impacto econômico imediato ou quantificável. A própria decisão registra que pesquisa, ciência pura e avanço do conhecimento humano podem qualificar-se, traduzam-se ou não em benefício econômico.

Importância nacional se afere pela natureza do empreendimento, e não pela sua extensão geográfica. Um projeto pode ser nacionalmente importante por ter implicações nacionais ou globais dentro de um campo, como um processo de manufatura aprimorado ou um avanço médico. Pode sê-lo, economicamente, por potencial significativo de empregar trabalhadores americanos, medido em relação à população e às circunstâncias da região, ou por outros efeitos econômicos positivos substanciais, particularmente em área economicamente deprimida.

COMO SE VIRA O JOGO: quem desenvolve um medicamento para uma farmacêutica demonstra importância nacional pelos benefícios prospectivos à saúde pública, e não pelo lucro projetado do empregador. Quem desenvolve tecnologia para uso ou venda por uma empresa precisa mostrar interesse amplo em adotá-la ou licenciá-la, ou um processo novo e importante, ou impacto sobre o desenvolvimento de tecnologia semelhante por terceiros.

Segundo prong: a pessoa

Aqui o foco desloca-se do projeto para quem o conduz. Pesam a educação, as habilidades, o conhecimento e o histórico de êxito em iniciativas relacionadas ou semelhantes; a existência de plano ou proposta detalhada que a pessoa desenvolveu, ou de cujo desenvolvimento participou de forma significativa; o progresso já obtido rumo ao empreendimento; e o interesse ou apoio despertado em clientes, usuários, investidores ou outras entidades relevantes.

UM ALÍVIO QUE POUCA GENTE CONHECE: a orientação diz expressamente que a pessoa pode estar bem posicionada para avançar o empreendimento ainda que não consiga demonstrar que ele provavelmente terá êxito. Não se exige garantia de sucesso. O que não se admite é afirmação sem substrato: plano de negócios e descrições de intenção precisam vir amparados por prova independente.

Cartas persuadem quando vêm de especialistas com conhecimento direto das realizações, descrevem essas realizações, dão exemplos concretos de por que a pessoa está bem posicionada e vêm amparadas por prova independente. Quanto mais integral a pessoa for ao empreendimento, mais forte o argumento.

Terceiro prong: o balanço

O último prong exige demonstrar que os fatores favoráveis à dispensa superam os que justificam exigir oferta de emprego e labor certification, processo que existe para proteger oportunidades, salários e condições de trabalho de trabalhadores americanos. Não é obstáculo o fato de o empregador poder pedir a labor certification: o Congresso reconheceu que, em certos casos, o interesse nacional é mais bem servido pela dispensa.

Consideram-se ainda o potencial de impacto econômico considerável, compatível por exemplo com revitalização econômica, e o potencial de criação de empregos. Para quem empreende por conta própria, de modo que em regra não afeta adversamente trabalhadores americanos, ou para quem cria empresa que gera empregos, o benefício da labor certification tende a ser pequeno. E vale a advertência expressa: escassez nacional de mão de obra na ocupação, por si só, não satisfaz este prong.

STEM e tecnologias críticas

Há considerações probatórias específicas para quem tem pós-graduação em ciência, tecnologia, engenharia ou matemática, embora a análise seja a mesma e possam aplicar-se fora do STEM quando o peticionário demonstre a pertinência. O USCIS considera fator positivo forte, no terceiro prong, a combinação de três elementos: pós-graduação avançada na área, sobretudo doutorado; trabalho que avance tecnologia crítica e emergente, ou área importante para a competitividade ou a segurança nacional americana; e bom posicionamento para avançar o empreendimento.

No segundo prong, o doutorado em campo STEM ligado ao empreendimento, e relacionado a tecnologia crítica ou a área importante para a competitividade ou a segurança, é fator especialmente positivo, considerado junto com o restante da prova. Ainda assim, o diploma por si só não demonstra bom posicionamento. Cartas de órgãos governamentais interessados, ou de entidades quase governamentais, não são exigidas, mas podem servir aos três prongs conforme o que digam.

Onde os casos costumam falhar

Uma nota processual que interessa a quem já recebeu negativa: quando o NIW é negado, a decisão deve informar o direito de recurso e a possibilidade de motion to reopen ou reconsider. E, se a inelegibilidade estiver na própria EB-2, o USCIS pode pedir prova adicional, emitir NOID ou negar sem chegar ao exame da dispensa.

Base normativa

Conteúdo conferido em 21 de agosto de 2026 no 8 C.F.R. § 204.5(k), no capítulo 5 da parte F do volume 6 do USCIS Policy Manual, cuja página declara vigência de 18 de agosto de 2026, e em Matter of Dhanasar. Critérios e prática de análise podem mudar por regra ou por atualização do Policy Manual.

Conteúdo informativo, de caráter geral, que não constitui aconselhamento jurídico nem cria relação advogado-cliente. Regras de imigração mudam com frequência e podem ser suspensas por decisão judicial. Antes de agir, confirme a vigência da norma e consulte advogado sobre o seu caso.

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