Análise · Visto de trabalho H-1B

Uma taxa de US$ 103 mil por pedido de H-1B está na mesa, e o dinheiro iria para seis órgãos diferentes

Marcelo Barros da Cunha Publicado em agosto de 2026
Antes de tudo: nada mudou ainda. É uma proposta em consulta pública, e nenhum pedido entregue hoje paga essa taxa. Os comentários vão até 24 de setembro de 2026, e só depois pode sair a regra final.

Em 25 de agosto de 2026, o Departamento de Segurança Interna publicou no Federal Register, sob o número 91 FR 54817, a proposta de cobrar US$ 103.265 de cada pedido de visto H-1B que disputa o limite anual, incluídos os que concorrem à reserva de 20.000 vagas para quem tem mestrado ou título mais alto obtido nos Estados Unidos. A taxa seria paga na entrega do pedido e somada a todas as outras.

De onde vem essa cifra

A história começa antes. Em setembro de 2025, a Proclamação Presidencial 10973 condicionou certos pedidos de H-1B a um pagamento de US$ 100.000, apoiada nos poderes presidenciais de restringir a entrada de estrangeiros. Em 8 de junho de 2026, um tribunal federal em Massachusetts derrubou as orientações que executavam esse pagamento, no caso California v. Mullin. O governo recorreu em 11 de junho, e o recurso continua pendente.

A proposta nova segue outro caminho jurídico. Em vez do poder de restringir entradas, ela invoca o poder de cobrar taxas do artigo 286(m) da lei de imigração, que autoriza o governo a cobrar o suficiente para recuperar o custo integral dos serviços que presta. O próprio governo registra que, se a proclamação e a taxa vierem a valer ao mesmo tempo, os dois valores serão devidos, e anota que a proclamação, se não for prorrogada, expira antes de a taxa poder entrar em vigor.

O que exatamente se propõe

A proposta acrescentaria à tabela de taxas do USCIS um item novo, de US$ 103.265, para todo pedido de H-1B sujeito ao limite anual. O número não é redondo por acaso: o governo somou US$ 8.777.488.035 de custos anuais que pretende recuperar, dividiu pelo volume previsto de 85.000 pedidos e arredondou o resultado, US$ 103.264,57, para o múltiplo de cinco mais próximo.

Ficam de fora os pedidos que não disputam o limite anual: os de universidades e entidades sem fins lucrativos ligadas a elas, os de organizações de pesquisa sem fins lucrativos ou do governo, e as prorrogações e trocas de empregador de quem já entrou no limite em ano anterior. Mas, dentro do limite, não há exceção nenhuma: pequena empresa e entidade sem fins lucrativos pagariam o mesmo valor. A análise do próprio governo estima impacto econômico significativo sobre 11.051 pequenas entidades, o que corresponde a 76% das pequenas entidades que entraram com pedidos sujeitos ao limite no ano fiscal de 2025.

Para onde iria o dinheiro

A novidade jurídica da proposta não é o valor: é o destino. Pela primeira vez, o governo propõe usar a taxa de um tipo de pedido para financiar não só o órgão que o analisa, mas outras cinco estruturas federais do sistema de imigração. A projeção de US$ 8,8 bilhões por ano seria repartida assim:

Para quem vai Quanto por ano Para quê
USCIS, que analisa os pedidos US$ 3,000 bilhões (34,2%) Cobrir o que as taxas atuais não pagam e absorver custos da conta de resposta acelerada.
Cortes de imigração (EOIR) US$ 2,957 bilhões (33,7%) 8.400 cargos novos, entre juízes e apoio, mais estrutura.
Departamento do Trabalho US$ 1,210 bilhão (13,8%) Certificação de trabalho (PERM, LCA, salário de referência) e fiscalização trabalhista.
ICE US$ 1,050 bilhão (11,9%) Checagem de antecedentes de quem pede visto e programa de estudantes estrangeiros.
Departamento de Estado US$ 484 milhões (5,5%) Checagem nos consulados, prevenção de fraude e custos do programa de refugiados.
Alfândega e fronteira (CBP) US$ 76,2 milhões (0,9%) Sistema biométrico de entrada e saída.

O fundamento é uma leitura ampla dos itens (m) e (n) do artigo 286: se a lei manda recuperar o custo integral dos serviços e permite reembolsar verba pública gasta com eles, o governo entende que pode cobrar de um grupo de empregadores custos gerados por outras agências. A própria proposta admite que nunca antes se transferiu diretamente o custo de um programa para outro com base na capacidade de pagamento de um grupo específico, e que muitos empregadores vão discordar de financiar programas com os quais não têm relação.

A justificativa oferecida é a capacidade de pagamento. O governo cita a remuneração mediana de US$ 133.000 dos beneficiários de H-1B aprovados no ano fiscal de 2025 e um estudo econômico recente para sustentar que a procura pelas 85.000 vagas não cairia abaixo do limite mesmo com taxa acima de US$ 100.000.

O que acompanhar daqui em diante

Fontes

Atualizado em 29 de agosto de 2026. O texto comenta uma proposta de regra, que pode ser alterada, abandonada ou, se vier a ser aprovada, suspensa por decisão judicial.